quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A inominável falta de vergonha

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A notícia do possível afastamento da seleção da Sérvia das competições da UEFA, por atos selvajens dos seus adeptos, vem de encontro a uma nota que coloquei no meu editorial desta semana.

"Em 1998, um jogo de futebol em Lordelo terminou com um juíz de linha agredido com um bloco de cimento. Cinco anos de coma depois, o árbitro morreu. 12 anos volvidos, o Supremo decidiu que o clube Aliados de Lordelo tem de pagar 41 mil euros à família da vítima. O clube não tem dinheiro. A junta não paga. A câmara não paga. Resta desejar o encerramento, arresto e venda dos bens em hasta pública rapidamente, para pagar a indemnização à família.
É a única coisa decente a fazer perante a ignomínia que é nunca ninguém ter sido capaz de identificar o responsável por este crime bárbaro. Adeptos assim não merecem ter um clube."

Por falta de espaço acabei por não falar nas declarações do autarca da freguesia que, com a maior desfaçatez, garantiu que o árbitro não esteve em coma, que morreu com SIDA e que a família já teria recebido muito dinheiro à conta desta história. Bem vistas as coisas, estas declarações não me devem merecer mais comentários. Está tudo dito.

(A imagem é do fenómeno hooligan na Inglaterra dos anos 70) 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O amor continua fodido

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Para Interromper o Amor
Mónica Marques 
Quetzal

As relações há muito que evoluem. Tempos houve em que a idade era uma questão, ou porque ela era mais velha, ou porque eram muitos os anos a separar os amantes. Também houve tempos em que o dinheiro determinava o sucesso do amor. Já foi a cor da pele também ela um empecilho. Hoje é menos. O género também tem vindo a deixar de ser uma questão, corroendo lentamente os “cascas grossas” que resistem.
Mónica Marques, neste seu “Para Interromper o Amor”, dá um valente pontapé nesta última barreira.
Numa Rolim regressa a Portugal depois de longo tempo no Brasil. Reencontra um casal amigo. Flirta com ele. Flirta com ela. Faz sexo e terapia com os dois. Cada um na sua vez. Passeia por Lisboa. Recorda a juventude nas festas do Avante. Amadurece á nossa frente.
Poderá o ser humano vir a amar independentemente do género do amado? Hoje um amado, amanhã uma amada. Não contente com isso a autora baralha alguns dos mais antigos conceitos da geografia literára. Neste segundo romance, assistimos à torção e contorção de um triângulo amoroso até ele virar uma elipse, na forma e no que esconde ao revelar-se.
Diz a gramática que uma elipse é a omissão de uma ou outra palavra sem que com isso se prejudique o entendimento da frase. Este romance é elíptico, já que faz um jogo de omissões sem que se perca a meada á narrativa. Omite uma história, omite a sua profundidade biográfica, omite todos aqueles países que fazem fronteira com o Bairro Alto.
Mas é nestas omissões que a força da autora emerge. Mónica Marques é uma vítima de Miguel Esteves Cardoso, de Rubem Fonseca e Nelson Rodrigues – ainda que nenhum apareça no livro, ao contrário de José Rodrigues Miguéis ou Pedro Mexia – homens que sempre souberam que o amor é fodido.
Mónica aceita essa condição inelutável do amor e entrega-se a ele através dos seus personagens. É um facto que este romance parece coisa de gajas. Também é um facto que a maior parte dos homens jamais o compreenderão, ainda assim não deixa de ser de leitura obrigatória. Tal como um bom whisky, cada capítulo provoca, no seu final, uma certa sensação de calor enquanto a língua sobe ao céu da boca, estala, e se solta um “aaahhhh”.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Como diz?

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Nas cerimónias do 5 de Outubro ouvi o PCP a dizer o seguinte "a vitória da Revolução Republicana de 1910 pôs fim a um regime monárquico anacrónico e parasitário e realizou importantes progressos no plano das liberdades e direitos fundamentais (...) as degradantes condições de vida do povo – salários baixos, longas jornadas de trabalho, ausência de políticas sociais – faziam realçar a decadência e o parasitismo do regime monárquico e a exigência do seu derrube".
Por momentos cheguei a pensar que estes pressupostos se aplicassem a tudo, mas pelos vistos não. Um comunicado do PCP, sobre a atribuição do Prémio Nobel da Paz a um chinês que luta pelos direitos humanos, liberdade de expressão e eleições democráticas, veio colocar tudo no seu devido lugar. Os valores chegam à China e contornam a fronteira, aliás como já acontecia nessa fenomenal democracia que é a Coreia do Norte.
A ler:
"A decisão da atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo – inseparável das pressões económicas e políticas dos EUA à República Popular da China - é, na linha da atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2009 ao Presidente dos EUA, Barack Obama, mais um golpe na credibilidade de um galardão que deveria contribuir para a afirmação dos valores da paz, da solidariedade e da amizade entre os povos".

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A nossa secreta natureza

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As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia
Miguel Real
D Quixote


Miguel Real é um dos excelentes escritores portugueses da atualidade. Injustamente, continua a não merecer a atenção que merecia e a sua simpatia exige. “As Memórias de Branca Dias”, “O Último Negreiro” ou “O Último Minuto na Vida de S.” são apenas alguns dos títulos deste professor de Filosofia a merecem uma leitura urgente.
Com uma imaginação e sentido de humor muito particulares, Miguel Real cria a história de um volume de memórias da rainha D. Amélia, a mesma que assistiu in loco à morte do marido e do filho no regicídio, roubado dos aposentos de Salazar no dia 25 de Abril.
O livro só acaba por ser recuperado na distante cidade búlgara de Sófia pelo próprio Miguel Real, que em homenagem ao centenário da República o deve depositar na Torre do Tombo.
Estas memórias secretas são só o leitmotiv para o autor fazer uma análise filosófica e psicologista de Portugal e dos portugueses. Depois do ensaio “A Morte de Portugal”, Real volta a fazer um diagnóstico cortante do país que o viu nascer.

Essa coisa do republicanismo

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Hoje, no Público, Vasco Pulido Valente coloca o dedo na ferida ao falar de umas das várias baboseiras ditas e repetidas à náusea sobre a República o 5 de Outubro. A ler.

"Não houve jornalista ou político da nossa pobre esquerda que não nos tenha vindo falar, a propósito do “5 de Outubro”, dessa misteriosa coisa a que por aí se chama “valores republicanos”. Confesso a minha perplexidade. A que raio de “valores” se referiam eles? (...) O Presidente da República inventou por sua conta os “valores republicanos” que na altura lhe serviam e que não existiram em Portugal, como, de resto, em sítio algum do Oriente ou do Ocidente: o espírito de compromisso, a cultura da responsabilidade, o horror à demagogia e, muito estranhamente, o primado da coesão nacional. E, no Parlamento, os deputados resolveram usar a I República portuguesa como um conto cautelar para uso da II, que se está manifestamente a dissolver. Não seria melhor calar daqui em diante a boca e, já agora, eliminar o feriado do “5 de Outubro”?"

E hoje, o que comemos?

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Esta é uma semana para duas notas.
A primeira tem de se centrar na eleição para a Federação Distrital do Porto. Por um lado há uma lista de recandidatura de Renato Sampaio, que tem a seu favor a muita experiência acumulada no cargo e como deputado da Assembleia da República. Contra este candidatura joga o facto de ser notória uma perda de força do distrito do Porto no discurso político, bem patente no cancelamento do IC35 e da requalificação da Linha do Douro. Registo ainda para a afirmação de que o PS de Sampaio pretende ganhar as câmaras de Paços de Ferreira, Paredes e Gondomar nas próximas autárquicas. Ao que parece, Renato sampaio considera mais simples ganhar dois bastiões do PSD, num dos quais (Paredes) o PS se mostra destroçado e pouco organizado, do que recuperar uma câmara que foi do PS por muitos anos (Penafiel) e em que os partidos de poder vão ter de apresentar um candidato novo.
Este discurso que desafia qualquer lógica é sintomático desse afastamento da Federação para com o interior.
Do outro lado da barricada está José Luís carneiro, o presidente da Câmara Municipal de Baião. A seu favor tem a juventude (se é que se trata de um valor em si mesma), o conhecimento profundo do mundo autárquico como oposição e poder, bem como a vivência de um interior do distrito muito esquecido. Contra si o autarca tem a sua condição de quase ilhéu no distrito (desterrado em Baião), falta de apoio em estruturas concelhias determinantes, como o Porto e Matosinhos e ser visto como um ponta de lança de um candidato à sucessão de José Sócrates.
Seria de pensar que as dúvidas fossem tiradas pelas moções de estratégia. Por bizarria, li as duas. A de Renato Sampaio, mais extensa, foca atenções no que deverá ser o distrito dentro de 20 anos. Uma região voltada para a floresta, o mar e o turismo. Sampaio traça uma estratégia com vista a um perído de tempo em que já não será líder da distrital e centra pouco as suas atenções no “já” e no “agora”.
Por outro lado, josé Luís Carneiro optou por uma moção mais simples e voltada para a militãncia. Dois terços do documento falam das reformas organizacionais que pretende empreender. Só no final há breves luzes quanto ao presente e futuro do distrito.
Num momento de profundas dificuldades, em que as famílias contam tostões e as empresas vivem com a corda na garganta, os dois candidatos olham para o céu e sonham com amanhãs que cantam.
A Federação Distrital do porto merece mais do que estes dois pré-fabricados ideológicos em forma de moção.
Quem tem salários cortados, perdeu o emprego, vai pagar os produtos mais caros ou verá cortado o rendimento mínimo (e no Porto serão muitos) não quer saber de fóruns para discutir a igualdadeentre os géneros ou o advento da biotecnologia. No Porto, em Portugal, as pessoas querem saber como sobreviver até ao fim do mês e sobre isso os candidatos dizem Nada. Nada sobre o IC35, Nada sobre a Linha do Douro, Nada sobre uma taxa de desemprego a aproximar-se dos 20%.
No meu entender a vitória deverá sorrir a Renato Sampaio com uma vantagem significativa, contudo a vantagem não deverá ser suficiente para coprrer de vez com o autarca de Baião. Um resultado para José Luís Carneiro que se situe acima dos 35% garantir-lhe um futuro promissor no PS/Porto, menos do que isso e a sua carreira sofre um duro revés.(...)

in Jornal Fórum 7-10-2010

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Veni, vidi, vici

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O Seminarista
Rubem Fonseca
Sextante

Rubem Fonseca tem tanto de genial e incontornável na literatura de língua portuguesa, como tem de ignorado por terras lusas.
Editado durante vários anos na extinta Campo das Letras (diga-se que sem grande investimento de divulgação e promoção), o criador do movimento brutalista conhece, aos 85 anos, a criação de uma coleção em nome próprio na Sextante.
A inauguração desta empreitada literária fez-se com o seu mais recente romance, “O Seminarista”. Fonseca é um daqueles grandes escritores que encontrou no ambiente policial o seu habitat. Para isso em muito terá contribuido a sua experiência como delegado de polícia, uma vivência que acabou por contribuir para o rigor dos ambientes e ação dos seus romances.
Desengane-se quem pensar que estamos perante romances onde o único foco de interesse está em perceber se o assassino é o mordomo. Nada disso. Os romances de Rubem Fonseca são romances sobre a vida, sobre a natureza humana, sobre os mais profundos meandros da mente, sobre a sociologia de um país muito disfuncional e rasgado por um fosso económico.
Na maior parte dos seus romances somos levados a acompanhar um sedutor detective privado de nome Mandrake. Mandrake será uma espécie de primo do inspector Jaime Ramos, criado por Francisco José Viegas. Aliás os dois chegam a cruzar-se no romance de Viegas "Londe Manaus", num exercício de crossover típico da banda desenhada, mas pouco utilizado na literatura portuguesa.
Neste “O Seminarista” acompanhamos um assassino profissional, que reúne todos os fetiches do autor (o gosto pelas mulheres, por vinho português e por literatura clássica).
José Kibir, nome falso adotado pelo matador, baseado numa fixação na Batalha de Alcácer Quibir, vê-se envolvido numa complexa teia de perseguições e ajustes de contas no exato momento em que decide abandonar a sua ocupação.
Este não será, de todo, o melhor dos romances deste Prémio Camões (2003). Mas este é, sem margem para dúvidas, uma das melhores portas de entrada na obra do autor de “A Grande Arte” ou de “Diário de um Fescenino”.
Fonseca é responsável pela chamada para a literatura e nomes óbvios como os de Patrícia Melo, autora de "O Matador" ou "O Elogio da Mentira" e se estende até uma mais discutível Fernanda Young, autora de "Aritmética" e roteirista da série humorística "Os Normais".
Rubem Fonseca merece uma maior visibilidade pelo que a criação desta coleção da Sextante é uma ótima notícia. Para fevereiro do próximo ano está agendada a edição de “Bufo & Spallanzani”. Isso e uma muito esperada visita a Portugal para participar nas "Correntes D'Escrita", o que a acontecer será um feito digno de nota, pois há décadas que Rubem Fonseca se tornou avesso a entrevistas e a fotografias.

Crimes
Ferdinand Von Schirach
D Quixote

Sem deixar o universo do crime, volto-me agora para o alemão Ferdinad Von Schirach e o seu “Crimes”.
Quem leu os “Crimes Exemplares” de Max Aub, tomou contacto com um universo de homícios frios e que banalizam a crueldade. Schirach mantém a mesma fasquia e constrói um conjunto de 11 contos que exploram o lado mais negro da humanidade. 
Aub um ótimo escritor espanhol, de origem alemã e francesa, criou uma série de histórias a partir de um suposto contacto com homicidas em estabelecimentos prisionais. O que os "Crimes Exemplares" fazem é tornar compreensível o incompreensível. Como pode um barbeiro matar um cliente por causa de uma borbulha, como pode alguém matar um amigo por causa de umas horas de frio e chuva. Aub consegue explicar esses ímpetos e tornar mais perceptível a banalidade do assassínio.
Ferdinad Von Schirach, um advogado habituado à barra e a defender casos aparentemente indefensáveis, pega em crimes cruéis para lhes dar um sopro de piedade, um fundo de admissibilidade.
Estes são contos moralmente interessantes, já que, não raras vezes, somos desafiados a tomar o partido do homicida. 
Um médico, que vive subjugado por uma mulher tenebrosa, um dia decide matá-la à machadada. Uma irmã que, por piedade, mata o irmão, marcado por um profundo traumatismo craniano. Um jovem pobre que faz um assalto e consegue inteligentemente fazer com que o tribunal o ilibe. São alguns dos exemplos dos desafios éticos e morais lançados por este “Crimes”. 
Schirach 
Esta reunião de contos é uma execelente companhia já que une a boa escrita à inquietação intelectual.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Uma boa história chega?

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O Bom Inverno
João Tordo
D. Quixote
Há um ano, João Tordo deslocou-se a Penafiel para receber o prémio José Saramago das mãos do próprio.
Na cerimónia de entrega do prémio, saramago, um escritor que sempre se fez valer da escrita e das alegorias para reflectir etica e politicamente sobre a sociedade, advertiu o jovem autor para a necessidade de a literatura se constituir como algo mais do que uma boa história.
Eu discordo de José Saramago, raramente há boa literatura sem uma boa história. Infelizmente Portugal tem muita “literatura” sem história. A preocupação dos autores portugueses com a experimentação formal criou um fosso grande entre leitores e obras. A menorização dos escritores de histórias é um dos desportos mais praticados no meio intelectual nacional. A meu ver é um erro. O romance brasileiro vive hoje momentos muito mais felizes porque largou alguma da tralha formalista. Rubem Fonseca, um dos maiores e melhores escritores de língua portuguesa, é um desses excelentes escritores de histórias. Como ele, há dezenas de outros grandes talentos do outro lado do Atlântico. João Tordo insere-se nessa linhagem de escritores que querem construir uma boa história, que dê que pensar, que suscite reflexões, mas que não deixe de ser uma boa história.
“O Bom Inverno” é um desses casos, sucedendo sem mácula a “Três Vidas” ou “Hotel Memória”. Tordo conta a história de um romancista português talhado à imagem e semelhança do “Dr House” (até na bengala) que depois de participar num encontro de escritores em Budapeste, se junta a um escritor italiano, à namorada deste e a uma agente literária portuguesa, para rumar à propriedade de um produtor cinematográfico americano, em Sabaudia, Itália.
A partir daqui o romance torna-se num thriller envolvente e muito bem conseguido. Há crimes, há suspeitas e há pistas e ligações que surpreendem o leitor. Mas acima de tudo há a certeza de uma boa história, bem escrita e estruturada. O que é que se pode pedir mais de um livro. João Tordo não quererá, certamente, ser a reencarnação de Joyce ou da portuguesa Maria Gabriela Llansol. João Tordo quer apenas escrever as suas histórias, fazer as suas catarses, enfrentar os seus fantasmas, ainda por cima consegue entregar umas boas horas de leitura envolvente. Se isto não é literatura, eu não sei o que é literatura.


Menos que Zero
Bret Easton Ellis
Teorema
Por fim, a sugestão de regresso a uma casa onde já fui muito feliz, a casa de Bret Easton Ellis. Nenhum filho da geração de 70 é um ser decente se não tiver lido “Menos que Zero” o romance de estreia deste escritor norte-americano. Reeditado a propósito do novo romace de Ellis, “Menos que zero” volta a acenar com todos os seus encantos intactos. Lá continua a estar a geração do “dolce far niente” regado a álcool, sexo e drogas. Uma geração que mais tarde verá a ascensão dos Yupies que protagonizam “O Psicopata Americano”, também de Bret Easton Ellis.
Chegados a 2010, o cronista destas gerações recupera os personagens de “menos que zero” e mostra como eles cresceram e anfretaram os anos, a isso chamou-lhe “Os Quartos Imperiais”.
Estes romances bem que podiam ser uma espécie de auto-retrato de Ellis, daí que valha a pena mergulhar nesta sincera polaroid de uma certa América.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

D Quixote apresenta novidades de Outubro

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António Lobo Antunes, Salman Rushdie e Thomas Mann, são alguns dos autores que marcam o mês de Agosto na D. Quixote.
Lobo Antunes apresenta um novo original intulado "Sôbolos Rios que Vão" acompanhado por uma guarda de luxo da literatura internacional.
Salman Rushdie é um dos nomes grandes de Outubro com o seu "Luka e o fogo da vida", um livro dedicado ao filho e que foi estrela na última bienal de Paraty, no Brasil.
No campo dos clássicos destaque para a reedição do "Doutor Fausto" de Thomas Mann e de "Divórcio em Buda", de Sándor Márai, uma recente descoberta dos leitores portugueses.
Por fim, mais um Vargas Llosa, desta feita trata-se de "A Tia Júlia e o Escrevedor".
Um mês de estalo na D. Quixote, depois de um Setembro recheado de Phillip Roth e José Eduardo Agualusa

Rui Cardoso Martins vence Prémio APE

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O romance Deixem Passar o Homem Invisível, de Rui Cardoso Martins, é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE). O júri, constituído por José Correia Tavares, Eugénio Lisboa, Luís Mourão, Luísa Mellid-Franco, Pedro Mexia e Serafina Martins deliberou, por maioria, a atribuição do galardão ao livro de Rui Cardoso Martins, um dos 83, recorde-se, que este ano concorreram ao Prémio.
O Grande Prémio de Romance e Novela da APE, atribuído desde 1982, já distinguiu 24 autores, de 16 editoras, havendo 4 que bisaram: Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luís e Maria Gabriela Llansol.
Deixem Passar o Homem Invísivel, editado pela Dom Quixote em Junho de 2009, conta-nos a história de um homem, cego desde os oito anos, advogado, que, durante uma grande enxurrada em Lisboa, cai numa caixa de esgoto aberta, situada junto da Igreja de São Sebastião da Pedreira. Na mesma altura, um escuteiro que regressava de uma actividade na mesma Igreja é também arrastado para o mesmo esgoto. É a viagem de ambos, através de uma Lisboa subterrânea, enquanto cá fora são tomadas todas as medidas para os salvarem, que o autor nos conta. Mas é também a entreajuda e a cumplicidade entre o cego e criança que sobressaem neste romance.
Rui Cardoso Martins nasceu em Portalegre em 1967. É escritor, jornalista e argumentista. Repórter internacional e cronista desde a fundação do jornal Público (dois prémios Gazeta de Jornalismo), fundador das Produções Fictícias (co-criador e autor de Contra-Informação e Herman Enciclopédia, entre outros programas). No cinema, é autor do guião de Zona J e co-autor da longa metragem Duas Mulheres.
O seu primeiro romance, E Se Eu Gostasse Muito de Morrer (Dom Quixote 4ª Edição), foi publicado em Espanha e na Hungria. Tem contos editados em diversas revistas letrárias (Ficções, Egoísta, Magyar e Lettre Internationale).

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O premiado minotauro

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 Discothéque
Félix Romeo
Minotauro

Um dos grandes trabalhos dos sucessivos governos espanhóis é a aposta na divulgação da sua cultura. O trabalho desempenhado pelo Instituto Cervantes é determinante no posicionamento dos criadores espanhóis em todo o mundo. Daí que não seja de estranhar que o governo espanhol tenha decidido apoiar a edição de algumas das obras da novíssima chancela da Almedina, a Minotauro. Criada para divulgar a literatura espanhola contemporânea, a Minotauro diferencia-se também pela qualidade da sua proposta gráfica. O carácter inovador da coleção da Minotauro já lhe valeu um Silver Award dos Prémios Europeus de Design e um outro da mais antiga associação de profissionais de design, sedeada em Nova Iorque, o Aiga 50 Books/ 50 Covers Outstanding Books and Book Covers Designed in 2009.
Os cerca de 10 títulos publicados até ao momento mostram a diversidade e pujança da literatura espanhola.
Do muito político “O Pai da Branca de Neve” , de Belén Gopegui, a um mais terno “Bingo”, de Esther Tusquets, há propostas para todos os estilos e temas.
Um dos títulos publicados mais recentemente é um perturbador “Discothéque”, de Félix Romeo.
Trata-se de uma viagem ao mundo das franjas sociais ao volante de uma comédia negra.
Tudo parte de um homem que recorda episódios trágicos de uma guerra travada pelo exército espanhol num abafado protetorado em Marrocos.
Torosantos pai, é um homem profundamente marcado por essa excperiência tentando fazer a sua catarse numa mesa de jogo.
Escusado será dizer que nela perde tudo, até mesmo a vida do seu filho, um artista, que acompanhado por Dalila Love, protagoniza shows de sexo ao vivo.
A partir da apresentação desta dupla extravagante, a narrativa começa a ganhar velocidade e torna-se mais dominadora do leitor.
Na garupa da mota de Romeo, vamos passando por personagens dos quais guardamos os traços mais grossos e extravagantes.
Um comediante sem graça, um empresário do meio pornográfico ou a mulher que esteve prestes a ser uma estrala de cinema e acabou em gentente de pensão.
Há neste romance muitos pontos de contacto com a realidade portuguesa, aliás Portugal é chamado à trama muitas vezes e de diversa forma. Todos os personagens extravagantes deste “Discothéque” bem que podiam viver por aqui, podiam ter estado na guerra na Guiné, podiam frequentar bares de alterne em Amarante e pensões manhosas nos Anjos ou no Conde Redondo.
Este é um romance com tudo o que é necessário para se tornar muito nosso. Tal comonos apropriamos de derminadas bandas pop/rock estrangeiras porque trazem consigo uma certa melancolia muito nossa (Tindersticks ou The National), também este romance pode e deve por nós ser adoptado.

 Julio Cortázar
Papéis Inesperados
Cavalo de Ferro

Termino com uma referência à edição dos textos inéditos do argentino Julio Cortázar, “Papéis Inesperados”, da Cavalo de Ferro.
Este imponente volume revela poemas, crónicas, pequenas histórias ou memórias de amigos. “No amor qualquer monólogo se nega a si próprio, por razões paralelas a todo o diálogo é de alguma maneira um monólogo noutra dimensão do ser; no amor, falar é criar espelhos, entrar nesse jogo de facetas biliosas que devolvem imagnes vindas de um torvelhinho de cinzas e falenas”, é assim que arranca uma espécie de prefácio a um livro de Maurício Wacquez, mas também podia ser o retrato deste volume. Um enorme monólogo que se apresenta como jogo de espelhos, que se alimenta das cinzas de romances e que dá a conhecer pormenores da vida e da obra de um autor que bebeu em mestres como Edgar Allan Poe, também ele muito presente nos ambientes de Félix Romeo.
Se ainda não conhece Cortázar, urge que procure “A volta ao dia em 80 mundos” ou então o fabuloso “Rayuela”.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

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"Morro Bem, Salvem a Pátria!"
José Jorge Letria
Oficina do Livro
 
O centenário da República é uma daquelas oportunidades que as editoras, por norma, não desperdiçam. Poto isto, não faltam, nos escaparates, os mais diferentes títulos e géneros a explorar o filão republicano. Há ensaios, romances, biografias, para todos os gostos e tendências. Não é de admirar que um dos mais prolíficos autores de lingua portuguesa, José Jorge Letria, tenha aproveitado o embalo e posto cá fora uma especialíssima leitura da figura de Sidónio Pais.
Esta reconstituição da figura e dos últimos dias da vida de Sidónio, a quem Fernando Pessoa chamou “Presidente-Rei”, é uma versão revista e aumentada de um livro anteriormente editado pela Âmbar.
Neste livro, de leitura rápida, José Jorge Letria faz uma viagem pela vida e personalidade de Sidónio Pais muito impressiva, sem se deter em grandes detalhes ou reconstituições, que transmite o ar do tempo e os traços de caráter desta reencarnação do “desejado”.
Letria chama o leitor aos vários teatros onde se constrói o mito, onde nascem as conspirações e se concretiza o atentado.
A narrativa, que não é linear, recorre a personagens conhecidos (Fernando Pessoa) e desconhecidos (o barbeiro) para traçar o ambiente social e psicológico do Portugal de 1918.
Saídos de uma I Grande Guerra onde perdemos mais de cinco mil soldados e da mortandade da gripe espanhola, Portugal é um país órfão. Sidónio é um homem cerebral, fã do estruturalismo alemão e de uma forma de estar embebida de princípios militares.
Este jovem diplomata, figura menor da vida política portuguesa, acaba por ser visto como a solução para ressuscitar o país.
O povo que aclama Sidónio está muito longe das elites que urdem conspirações para afastar o jovem galã.
Conhecido pelo sucesso que tinha junto das mulheres, Sidónio vai manter-se fiel à sua formação militar e recusará voltar a cara à luta. De tal forma se mostra destemido que acaba por caminhar de peito aberto para as duas balas que lhe estavam reservadas na estação do Rossio.
“Morro Bem, Salvem a Pátria”, editado pela Oficina do Livro é uma ótima aproximação a uma figura polémica, que, reza a história, terá inspirado Benito Mussolini e Oliveira Salazar.
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"Os Subterrâneos da Liberdade"
Jorge Amado
D Quixote

Durante muitos anos, literatura brasileira foi sinónimo de Jorge Amado. Capaz de conquistar leitores no meio intelectual, assim como chegar às grandes massas, Amado acabou por servir de tampão a muita outra grande literatura brasileira.
As adaptações dos seus romances à telenovela, então em ascensão, fez dele o baluarte de uma certa literatura de cor local.
Muitos portugueses acreditavam que o Brasil era só o Brasil baiano de Jorge Amado, o Brasil de Gabriela, de Dona Flor ou da quente Tieta do agreste.
O facto é que a literatura brasileira é mais larga do que essa imagem quase caricatural, e a obra de Amado também é muit mais do que esses romances “anovelados”.
Muitos acabaram por encontrar um outro Amado, um escritor mais político e interventor. A filiação à esquerda, nunca escondida, foi descoberta em obras como os “Capitães da Areia”. Mas essa obra emblemática fica muito longe dos três volumes que a D. Quixote, em boa hora, agora publica intitulados “Subterrâneos da Liberdade”.
Caindo na tentação de dizer uma heresia, estes três livros são um equivalente ao “Tempo e o Vento” de Érico Veíssimo.
Amado descreve a luta de um país contra a ditadura de Getúlio Vargas, como se instala um poder, que sendo velho, se intitula “Novo”. Este é um belo romance paraperceber como Portugal e Brasil são mais irmãos do que, por pura ignorância, imaginamos.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Infelizes à sua maneira

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                                    Desfile de Primavera
                                          Richard Yates                     
                                             Quetzal
Num tempo em que a crise parece ter tomado conta das nossas vidas, por que não olhar para a literatura pós-crise. Estou a falar da literatura de Richard Yates, o norte-americano que melhor retratou a América pós-crash bolsista de 1929.
Depois de ter publicado “Jovens Corações em Lágrimas” e “Perto da Felicidade”, a Quetzal editou agora “O Desfile de primavera”.
Voltamos ao cenário favorito de Yates, a América dos anos 30/40 e à vida de uma família de classe média-baixa, marcada por um divórcio.
Duas irmãs, Sarah e Emily, concentram as atenções, desde os tempos de meninas, em que deambulavam de terra em terra com mãe, à morte do pai e ao descobrir do amor e da sexualidade.
Yates conta, como poucos, a o dia a dia das vidas cinzentas e medíocres. “O Desfile de primavera”, á semelhança dos antecessores, traça o retrato nu da luta pela dignidade e ascensão social, mas também os sonhos desfeitos e a derrota, lenta e desgastante, imposta pelo quotidiano.
Tolstoi, na abertura do Anna Karenina, dizia que “todas as famílias felizes são iguais. As infelizes  são-no cada uma à sua maneira”. Yates parte deste pressuposto para desmontar essa ideia peregrina da vida normal. Sarah e Emily vão trilhar vidas normais marcadas pela anormalidade do alcoolismo, do casamento falhado, do desemprego e do sexo fortuito.  
Se o título do romance remete para a primavera, será justo dizer que o universo de Richard Yates é muito mais Outonal que primaverial. Este é uma das obras fundamentais de um autor que andou demasiado tempo longe da edição portuguesa.

Livros para ler com os pés no mar

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Depois de um ano mergulhado no mais profundo sedentarismo nada sabe melhor do que ir para a praia, local propício à prática do desporto, e levar um livro ou vários. Assim sendo ficam algumas das sugestões de leitura para vários gostos e tendências.
Férias é sinónimo de viagem, daí que a coleção de literatura de viagens, da Tinta da China e coordenada pelo jornalista Carlos Vaz Marques, seja uma escolha mais do que acertada. Dos títulos já disponíveis destaco a chegada tardia às traduções portugueses de um grande escritor, Brendan Behan e o seu “Nova Iorque”. Este boémio, que viveu e escreveu mergulhado em litros de álcool, faz um retrato apaixonante da cidade que nunca dorme e que se pode sintetizar numa das suas frases emblemáticas: “Depois de ter estado em Nova Iorque qualquer pessoa que regresse a casa dar-se-á conta de que o seu lugar de origem é bastante escuro". Nesta mesma coleção saiu, recentemente, o único livro de não ficção de Agatha Christie “Na Síria”.
Saltando para o universo do romance, a primeira sugestão de fôlego vai para “Por favor não matem a cotovia”, de Harper Lee. Este romance, que valeu à autora o Pulitzer, é a história de uma América marcada pelas divisões Norte/Sul, contada pelos olhos de uma menina que vai acompanhar o julgamento de um negro acusado ter supostamente violado uma rapariga branca. A comemorar os 50 anos da sua edição, este romance dá a conhecer uma América pós-grande depressão que encontra muitos pontos de contacto com os dias de hoje.
Outro romance de fôlego a merecer atenção, sobretudo para quem gosta de universos mais racionais, é “O escriturário indiano”, de David Leavitt. Também ele passado na primeira metade do século XX, este romance conta a história de um génio matemático indiano que resolve um problema quase impossível e é convidado a viajar até Inglaterra, onde se vai envolver em tramas de inveja e amor. Estando nós no verão, nada melhor do que ler sobre o verão, para o caso “Três Verãos”, de Julia Glass. Esta história sobre as venturas e desencontros da família escocesa McLeod valeu a Glass o National Book Award. 
Para leitores mais avessos a grossos volumes, há sempre a possibilidade de aproveitar para ler o segundo romance de Chico Buarque, “Benjamim”. Reeditado pela D Quixote, este romance conta a história e obsessões de um ex-modelo fotográfico revelando um talento que se confirmaria em “Budapeste” e “Leite derramado”.
Fecho com um livro bom para ler no verão, o livro que inspirou a criadora da série “Sexo e a Cidade”, falo de “O grupo”, de Mary MacCarthy. Neste livro acompanhamos um grupo de várias jovens, em plenos anos 30 e numa das mais elitistas universidades americanas. O amor, o sexo, o trabalho, enfim o quotidiano destas oito mulheres é a matéria prima para um sem número de aventuras femininas.
No campo da literatura histórica e fantástica a sugestão só poderia ir para um dos autores clássicos, Marion Zimmer Bradley e “A espada de Avalon”. Depois do sucesso de “Brumas de Avalon”, este romance fecha o ciclo, contando o que se passou antes desse romance mítico e de que forma Mykantor tomou contacto com a famosa espada Excalibur.
Um dos livros mais incatalogáveis deste ano tem a chancela da Quetzal e chama-se “O livro dos prazeres inúteis”, de Tom Hodgkinson e Dan Kieran. “O prazer inútil é também amigo do ambiente. Não há nada que seja menos prejudicial ao ambiente do que não fazer nada. Deitar-se no campo a olhar para o céu pode ser um ato curativo do planeta”, garantem os autores de uma pérola do bem viver. 
Termino com a sugestão de um ensaio, chama-se “Vergílio Ferreira – o excesso da arte num professor por defeito”, de Maria Almira Soares. Este ensaio, que pesa a importância da escola e da sua atividade como professor na obra e vice-versa, foi o vencedor do Prémio Literário Vergílio Ferreira. Perceber como o rigor do professor se ligava com a imaginação do escritor é um desafio que a autora conduz com muita inteligência. Um livro que sai no excato momento em que a obra o do escritor é reeditada e acaba de sair um romance inédito.
Estas são algumas das sugestões para umas tardes de verão bem passadas á beira-mar.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

“Brasileiros vivem melhor mas não querem saber da cultura”

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                                                                                     Foto Carol Reis

Fez a estreia, no romance, com o belíssimo “De cada amor tu herdarás só cinismo”, agora, Arthur Dapieve, acaba de editar, em Portugal, “Blackmusic”. Um dos mais respeitados críticos musicais brasileiros e colunista do Globo, Dapieve constrói o relato de um sequestro recorrendo a três estilos musicais negros, o Jazz, o rap e o funk carioca. Ao Marechal na Reserva falou do novo romance e de uma cidade partida entre pobres e ricos.
Marechal na Reserva (MR) – Como é que surgiu a ideia de contar a história de um sequestro utilizando, para isso, o fraseado de três tipos de música negra?
Arthur Dapieve (AD) – A ideia do sequestro surgiu no exacto local em que ele ocorre no romance, no dia de S. Judas Tadeu, no Rio, junto a uma igreja perto do local onde moro. Eu fiquei preso num engarrafamento e, com aquela confusão toda tipo bazar, eu pensei: “se acontecesse um sequestro aqui ninguém notaria”. Aí eu comecei a imaginar como seria esse sequestro. Regressei nos dois anos seguintes ao mesmo local, no dia da festa, para ver melhor o que eles faziam, o que comiam, portanto vários personagens foram ali observados. A ideia dos três registos nasceu no momento em que defini que o sequestrado seria um menino americano, negro, no Brasil. Esta seria uma forma de abordar, sem ser um romance de tese, a questão da raça no Brasil. O Brasil adora dizer que não tem problema com raça. Isso é uma mentira.

MR - Mas este esquema de romance como manta de depoimentos surge como?
AD - A ideia desses três registos vem do “Som e a Fúria”, do Faulkner. O primeiro personagem que aparece no livro e que não tem qualquer importância, é só um garotinho com vontade de urinar, tem o nome do Faulkner, William Cuthbert F.. O “Som e a Fúria” é construído assim, através de vários depoimentos. Como sou jornalista e escrevo muito sobre música, tinha a ideia de construir mais um romance que usasse a música para falar do Rio de Janeiro e vice-versa. E por conta da faixa etária dos personagens, todos adolescentes, para os quais a música americana é muito forte. A primeira parte é a voz de um menino americano ligado ao jazz, na segunda o rap - que não é tão forte no Rio como é em S.Paulo - cantado por um branco para  haver uma inversão, e a terceira parte uma mulata que gostasse de funk carioca.

MR – A forma como através da escrita constrói cada um dos depoimentos, segue a linha melódica de cada um dos estilos musicais. Foi propositada a harmonização da escrita com a melodia dos diferentes géneros? Por exemplo o rapaz que é raptado tem uma atitude muito cool, própria do som do Miles Davis e até a sua voz – na transição da adolescência – remete para o som do trompete.
AD – Foi sim. É mesmo assim como você descreve. Para além disso o rapaz tem uma atitude muito cartesiana. Apesar de estar numa situação absurda, ele ainda suspeita que os terroristas muçulmanos, ele descreve a situação de uma forma muito calma. O grande desafio foi mesmo fazer o rap. Ele não podia ser muito grande para não ser entediante, nem curto de mais que se tornasse insignificante. A primeira versão que fiz era muito maior e fui cortando. Eu fiz todas as experiências. Experimentei lê-lo como um rap para ver se funcionava bem e se era verosímel. Quanto ao funk carioca, o género preferido da Jô, uma das suas características é falar de sexo desabridamente. Um dia uma amiga comprou um CD pirata e mostrou-me. Eu fiquei horrorizado com o que ouvi. É de uma grosseria. É uma mulher a cantar e é um jorro. Curiosamente esta parte foi a mais fácil de fazer. Eu pensei que escrever do ponto de vista de uma mulher pudesse ser mais complicado, mas foi a parte do livro que andou mais rápido.

MR - O desbragamento do funk carioca, acaba por ter reflexo em quem ouve, ou é uma emanação de uma determinada cultura de morro?   
AD – Eu acho que é um círculo, mas para mim começa na vida. A condição de quem vive na favela é uma condição de alguma violência. A juntar a isso a falta de cômodos nas casas há muita promiscuidade. Os jovens começam a vida sexual muito cedo. Por isso eu acho que a raiz está aí. Quando o funk surgiu muita gente ficou escandalizada e dizia que isto não era música. Mas é música. Não é música que eu ouça em casa – até porque tenho crianças – mas é música. É o mesmo discurso igual ao que saudou o aparecimento do jazz, o aparecimento do rock. É uma cultura muito erotizada, em que as meninas ficam grávidas muito cedo. 

MR – O Zuenir Ventura tem um livro que fala no Rio como uma “Cidade Partida”. O fosso entre ricos e pobres continua a crescer ou já se nota uma aproximação entre esses dois mundos?
AD – É muito profunda. Nos últimos 16 anos, com a continuidade do governo Fernando Henrique Cardoso e Lula (aliás eles se detestam porque são muito parecidos), o país teve uma estabilidade económica e a crise não foi muito forte. Nesses anos a distância entre ricos e pobres diminuiu. Neste momento a classe média já é o segmento mais forte da sociedade, mas é uma classe média muito estreita. A classe média no Brasil é quem ganha entre 500 e 1500 euros, o que é muito pouco. Mas como o custo de vida não é alto, dá para as pessoas melhorarem a sua condição. Outro problema é que essa maior fluência económica não está a ser acompanhada por uma maior fluência cultural. Um dos pontos de estrangulamento económico do Brasil é a falta de qualificação da mão de obra. Há algumas empresas com vagas que não são preenchidas por falta de mão de obra qualificada. Não ficaria admirado se houvesse um novo surto de emigração, sobretudo oriundo de países da América Latina. Para quem como eu é jornalista e acompanha o panorama cultural, é muito triste ver tanta gente com dinheiro que não é capaz de comprar um livro. Aliás nem saberia sequer quem é Zuenir Ventura.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Livros que já deviam estar traduzidos

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"1910 uma antologia literária"

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                               1910 uma antologia literária
           Miguel Real, Teolinda Gersão, Mário Cláudio, Luísa Costa Gomes, Urbano Tavares Rodrigues e Mário de Carvalho
                                              D Quixote

As efemérides são oportunidades para a indústria editorial faturar. A cada comemoração lá aparece uma chuve de livros sobre o tema em questão. Com o aproximar dos 100 anos da República, não faltam títulos a celebrar a data. No meio de tanta oferta há que destacar uma iniciativa louvável da D Quixote. Portugal é um país que trata muito mal o conto, daí que um volume, ainda que pequenino, de contos é sempre de louvar. Se disser que os contos estão assinados por Mário Cláudio, Luísa Costa Gomes, Mário de Carvalho ou Urbano Tavares Rodrigues, não é preciso dizer mais nada sobre a garantia de qualidade.
“1910 uma antologia literária” junta alguns dos nomes mais interessantes da literatura portuguesa e bem habituados a habitar o terreno do conto.
Cada um dos autores reinterpretou a revolução à luz dos temas e ambientes que mais trabalham nas suas obras e isso acaba por transformar este livro numa porta de entrada para as suas criações.
No “Rosto de Portugal” de Miguel Real, encontramos um D. Manuel nos momentos que antecederam o embarque no navio D. Amélia rumo ao exílio. Este é um conto que nos coloca perante a necessidade do monarca em levar um sinal de que o regresso é possível, e apresenta um dos habitas preferidos de Miguel Real, o romance histórico.
Teolinda Gersão no conto “1910” recentra a revolução na questão da emancipação da mulher. Teolinda parte deste conto para questionar a possibilidade de novos caminhos de afirmação da mulher na sociedade e na política. Já Urbano tavares Rodrigues leva-nos para o terreno da paixão. Um homem apanhado pela implantação da República nos braços da amante parte para a frente de combate às tropas leias ao rei e encontra um novo amor.
Um homem que à medida que se encanta com a jovem esposa se vai desapontando com o regime, com a política e com o rumo da história.
“1910 uma antologia literária” é uma ótima escolha para uma tarde de praia e para descobrir leituras futuras.

O escritor que não quer ser encontrado

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É muito tímido e movimenta-se nos encontros de escritores como peixe fora de água. Lourenço Mutarelli, autor de “A arte de produzir efeito sem causa” (ed. Quetzal, 2010), é, há muito, reconhecido pelos seus álbuns de banda desenhada, bem como a autoria de peças de teatro e argumentos para cinema, como “O cheiro do ralo”, meios cada vez mais alternativos e de nicho. A explosão de ideias e criatividade de Mutarelli só sai pela caneta, seja em desenho ou em texto. Esta entrevista, feita em voz baixa e muito serena,  cruza alguns dos temas mais queridos de Mutarelli, o vazio do quotidiano ou a angústia do fracasso. 
Este brasileiro de origem italiana, é um português irrepreensível.

Marechal na Reserva (MR) – A sua obra na banda desenha é pautada por atmosferas negras, depressivas, bastante duras. Este seu romance “A arte de produzir efeito sem causa” vai no mesmo sentido. Tem a certeza que, em vez de brasileiro, não é português?
Lourenço Mutarelli (LM) – Não tenho a certeza. E não tenho a certeza porque Portugal me toca de uma forma muito profunda. Estava a conversar com algumas pessoas que fui a Beja e é um local onde eu tenho que voltar. Portugal toca-me de uma forma muito profunda. Eu sou descendente de italianos e a minha mulher até já lá foi, mas eu não tenho vontade nenhuma de conhecer a Itália. Eu não tenho autoestima, é muito beixa, e eu acho que os portugueses são assim. Vocês não percebem a grandeza de vocês e dessa terra. Eu tenho uma ligação com Portugal que eu não tenho com o Brasil.

MR – É um reconhecido autor de banda desenhada, é argumentista, já participou em filmes como ator, escrever romances, ou seja, é um homem do Renascimento. Ainda assim não acredita nas suas capacidades e valor....
LM – Não, não, não acredito. Eu faço porque preciso, de alguma forma, de fazer. Eu preciso da experimentação. Quando as coisas saem há sempre um constrangimento, porque eu sei que vão julgar e não foi para isso que as fiz. Eu faço para mim. Eu não me considero um caso de fama e também não é isso que eu busco. Eu não busco nada. Eu só tento não ser encontrado. Sou o contrário da busca. 

MR - Esse acaba por ser o retrato do protagonista deste romance.
LM – É. Quando terminei o livro eu pensei que esse personagem não tinha nada que ver comigo. Mas pensando bem ele tem tudo que ver comigo. Ele rabisca papéis como eu, ele se chama júnir como eu, só não tive , felizmente, que voltar a viver em casa dos pais. Para mim essa seria a maior da derrotas, voltar para casa dos pais. Fracassar totalmente é algo comum no Brasil e infelizmente as pessoas acabam por ter de voltar para casa dos pais, já com mulher e filhos, em situações muito difíceis. Nisso eu triunfei. Aí eu tenho um certo orgulho – se calhar por causa da minha mulher e do meu filho não o fizesse – mas eu talvez preferisse ir viver para a rua a voltar para casa dos meus pais.

MR – Este romance vive na linha que separa a pobreza de uma vida remediada. Este é um romance sobre pessoas que tanto podem estar com uma vida equilibrada, como de repente caem para a pobreza.
LM – Isso tem muito a ver com a minha vida. Eu venho de uma família da classe média baixa, mas que vivia sempre com a ameaça de afundar. O meu pai era viciado em corrida de cavalos. Nós vivíamos sempre com essa ameaça de perder tudo. Embora ele tivesse hipótese de garantir uma vida equilibrada, tudo era desperdiçado. Havia uma ameça muito grande de ir lá para baixo. Eu vivia numa rua em que de um lado estava a favela e mais acima estavam as mansões, logo acabava por ter amigos dos dois lados. Já aí eu não me enquadrava. Para uns eu era uma favelado e para os outros eu era um filhinho de papai, um burguês. Quando eu casei para o bairro mais pobre da zona leste de S. Paulo. Vivia na periferia, quase numa favela. S. Paulo não tem favela propriamente dita, vai atirando as pessoas para a periferia. Eu não tenho ideário de classe alta, mas por outro lado tenho a sede de ter acesso a livros e a discos, a coisas que me alimentem a alma. Tudo o que eu conquisto, geralmente, é para isso, eu reverto para isso.

MR – O Lourenço parece-me como o escritor dos sem-voz. O escritor daqueles que não vivem nos romances assentes na cor local e no folclore, nem nos romances que abordam uma espécie de “glamour” da pobreza, da excitação da favela. Os seus personagens enchem as grandes cidades mas não costumam produzir literatura.
LM – É do que eu estou impregnado. Eu sinto muita falta de raízes. S. Paulo é uma cidade hostil com quem é de lá. Eu não tenho esse universo de Jorge Amado, para mim isso são coisas míticas. A  minha realidade é essa coisa pequena e dura que é o lugar onde você constrói o seu mundo, numa metrópole que te vai esmagando cada vez mais. Na literatura brasileira há uma coisa que me  aborrece: há pessoas que escrevem com verdade e há aquelas que escrevem porque funciona. Há pessoas que vestem uma roupagem em que eu não reconheço autenticidade e verdade. Eu procuro, no meu trabalho, falar de coisas que eu conheço, interna ou esternamente.

MR – O Brasil já tem uma literatura “favela-chic”
LM – Eu sou amigo do Ferréz, que é um cara do Capão Redondo (uma favela muito violenta no Rio de Janeiro) e escreveu o livro “Capão Pecado” (ed, Palavra, 2005). Foi um livro que estourou, com muito sucesso mesmo, logo a seguir ao do Paulo Lins, o “Cidade de Deus” (ed. Caminho, 2003), mas que acabou ficando preso do tema. Ele hoje só pode falar de favela. Eu já li textos dele muito bons que fogem disso, mas ele não consegue libertar-se desse registo por questões editoriais.

MR – Os últimos anos da presidência de Fernando Henrique Cardoso e dos dois mandatos de Lula permitiram um crescimento da classe média brasileira. Até que ponto o Brasil tem condições para responder aos anseios dessa classe média?
LM – Infelizmente, os anseios da classe média passam só pelo consumo. Eu acho que eles conseguiram foi graças a um preço muito alto. Eles conseguiram isso com base em cartões de crédito, em financiamentos bancários com prestações que eles não estão a conseguir pagar. Esse consumo é ligado à aparência. É tudo para mostrar ao outro que estão bem. O básico eles não conseguiram. As escola públicas são terríveis, os planos de saúde são caríssimos, etc. Esta meta da aparência é muito vazia. O brasil é isso. O Brasil é um presidente que diz que nunca leu um livro e com um certo orgulho. No essencial o que eles querem é o que é mais fácil, mais divertido e que impressione mais o próximo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O cancro permitiu-me pensar sobre a vida

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Mariela Michelena é psicalista e há uns anos atrás viu-lhe ser diagnosticado um cancro da mama. Ao longo de mais de um ano, esta espanhola de raízes venezuelanas encheu sucessivos cadernos com o relato dos dias contados. A raiva, a dor, o sofrimento estão lá todos e sem o manto delico-doce e positivo dos livros de autoajuda. Há que sofrer para a entender, bem que podia ser o lema deste relato que não deixa o leitor indiferente. Ao ler os detalhes da via sacra desta doença ficamos com uma ínfima ideia do sofrimento que ela encerra.
“À noite sonhei que tinha peito” é um diário verídico que não fala só de uma doença, fala da vida inteira. Pensar que este livro é só sobre cancro, é a mesma coisa que pensar que o cancro é só uma doença. E não é.

Marechal na Reserva (MR) - Este livro/diário tem uma carga de exposição pessoal muito grande e forte. Que força foi essa que a levou a escrever desta maneira sobre o cancro da mama de que sofreu?

Mariela Michelena (MM) – Eu crei que quando nos confrontamos com uma doença como esta, com um cancro, um cancro da mama tão agressivo, ficamos com a sensação – tal qual as pessoas que sofrem um acidente - de que toda a nossa vida passa diante dos olhos. Eu tive a sensação que a minha vida, a minha infância, as minhas relações familiares passaram diante dos meus olhos em camara lenta. Não foi rápido como um acidente, porque vivi uma doença que exigiu um período de recuperação longo. Como tal pude voltar a todas essas vivências e reecontrar-me com elas.
Efetivamente, o livro é muito intenso, até porque a doença, a recuperação e os tratamentos são intensos. Além do mais, eu sou muito intensa. O livro não podia ser de outra maneira.

MR – A sensação que tive, ao ler este livro, foi de que fala muito mais da vida, em toda a sua extensão, do que propriamente do cancro da mama. Este é um livro sobre a essência da vida?

MM – Sim. Na verdade agrada-me que tenha feito essa leitura do livro, porque às vezes fico desapontada com o facto que o leiam apenas como um diário sobre o cancro. A mim parece-me que se trata de um livro que vai para além do simples diário de um cancro. Parece-me que é um testemunho de uma vida feliz, de uma vida feita de uma infãncia recheada, de um futuro (comigo ou sem mim) e um presente importantes. A mim, parece-me que o livro vai mais longe do que a simples narração dos diagnósticos, da operação, da quimio, etc... O cancro deu-me a possibilidade de poder pensar sobre a minha vida, que é só uma vida mais.

MR – Quando recebi o livro temi que se tratasse de uma espécie de livro de autoajuda. Um mantra positivo para lidar com a doença. Este livro é o oposto desse conceito de autoajuda.

MM – Quando me diziam para pensar positivo, que não ia ser nada, eu sentia-me muito perdida. Sentia-me assim porque, efetivamente, se passava alguma coisa comigo. Estava a pensar algo muito duro, muito violento e muito feio. A minha atitude foi a exatamente oposta, foi a de enfrentar o que se estava a passar de uma forma nua e crua. Eu não fiquei deprimida durante, não fiquei deprimida depois, graças ao facto de ter vivido tudo tal qual me chegava. Não andei a olhar para as coisas através de um cristal positivo. Olhei para tudo o que me aconteceu de uma forma crua, até porque o cancro é uma coisa muito feia. Nunca o consegui entender e fiquei sempre com aquela sensação de, se acontece a uma em cada dez mulheres, porquê a mim? Podia ter tocado a outra. Fiquei com uma raiva enorme. E se há alguma coisa que retiro de positivo, deste diário, é o facto de encontrar gente que o lê e se revê naquela forma de encarar as coisas. Gente que, pela primeira vez, se diz compreendida. Gente que o dá a ler à família, para que estes entendam o que está a passar. Eu creio que não há uma só forma de viver as coisas. Eu ergo a bandeira daqueles que choram quando têm de chorar e que sofrem quando têm de sofrer.

MR – Este diário fez-me lembrar um espetáculo, “Os Produtores”, que fala de um musical que era tão, tão mau, tão mau, que acabava por ser bom. Este relato coloca as coisas de uma forma tão dura, tão dura, tão dura que acaba por ser boa e positiva.

MM – Acredito que quando fazemos uma coisa a devemos fazer bem Eu entreguei-me por completo à doença. Assim, depois dessa entrega, depois de toda a raiva, tenho agora a possibilidade de me rir também dela.

MR – Este diário é verídico, mas está escrito de uma forma tão literária que parece ficcionado. Ou seja, é um diário tão literário que custa a crer que seja real.

MM – Isso alegra-me, mas posso assegurar-te que é tudo real e está documentado nos cadernos que fui guardando ao longo da recuperação. Algumas das páginas que escrevi, nesses cadernos, t~em as marcas das lágrimas que me iam caindo. Para mim é um elogio que possas ter pensado que se tratava de uma ficção. Se há algo que não está neste livro foi porque entendi que faziam parte da minha intimidade e da intimidade que partilho com o meu marido. Tudo o resto foi escrito como está.


   

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Portugal tem muitos traços rocambolescos

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João Ferreira, editor da revista NS (parte integrante do Jornal de Notícias e Diário de Notícias), já nos tinha plantado um sorriso com o livro “Frases que Fizeram a História de Portugal”. O volume reunia frases como a famosa declaração do Almirante Américo Tomás, “é a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive”. Agora a proposta vai para um conjunto de histórias, que apelidou de rocambolescas, e que servem para entender momentos que marcaram a nossa História. Do processo dos Távoras, passando pela inexistência da Escola de Sagres e terminando num governo que durou cinco minutos, há de tudo como na farmácia. Ao Fórum, João Ferreira falou  desta peripécia chamada Portugal e impossibilidade de procurar, nestes episódios, receitas para o atual estado de saúde pátrio. 


Marechal na Reserva (MR) – Como é que surgiu a ideia desta antologia de histórias inusitadas da História de Portugal?

João Ferreira (JF) – Partiu de um convite da editora Esfera dos Livros na sequência da boa aceitação de um outro livro, “Frases que Fizeram a História de Portugal”, escrito a meias com o Ferreira Fernandes.

MR – Em Portugal, durante muitos anos, o tratamento da história sempre foi visto de uma forma muito académica, muito científica. Nos últimos anos, começamos a ter livros que trabalham a história de uma forma mais acessível ao grande público, mais jornalística.

JF – Felizmente, hoje em dia, temos uma forma muito diferente de entender a leitura da história. Essa mudança já tinha começado com um grande divulgador da História de Portugal que é o professor José Hermano saraiva. Os livros dele já faziam, há mais de 25 anos, uma abordagem à História muito mais acessível. O que aconteceu foi que ele pregou no deserto durante muitos anos. Os olhos só se voltram para a História após a publicação da monumental História de Portugal do professor José Mattoso, muito embora tenha sido escrita por grandes especialistas. A verdade é que a divulgação da História tem ganho terreno nos últimos anos, muito mercê do interesse das pessoas por histórias que constam da História, mas de uma forma menos académica. O ensino acabou por tirar as pessoas da História, tirou os rostos, as caras da História. Hoje, as pessoas querem ler esses episódios históricos com os rostos de quem os viveu.Durante muito tempo era quase um pecado falar-se nos heróis da História, nos reis. Tudo isso, nos últimos tempos, tem estado a alterar-se.

MR – Ao escrever estas histórias rocambolescas, teve a preocupação de cruzar o rigor científico com uma forma mais viva e atrativa de contar os episódios?

JF – Exatamente. Eu sou jornalista e a minha função é comunicar. Quando aplico isso à História o que faço é, depois de investigar os episódios e momentos que entendo como interessantes, na extensa bibliografia que já vai existindo, apresento-as de uma forma acessível e direta, de forma a prender as pessoas à leitura. Não há aqui qualquer intenção de atingir o escalão A, B, C ou D. Eu quis chegar a toda a gente e que as pessoas pudessem apreciar a História de Portugal. Eu quis fazer um livro de divulgação.

MR – Tem crescido muito o interesse pelo romance histórico e pelos livros de divulgação histórica, acha que isso se deve ao facto de vivermos momentos de grande incerteza quanto ao Presente e ao Futuro?

JF – Este é um fenómeno que chegou já tardiamente ao nosso país. Por exemplo a biografia é um género literário que tem grande aceitação no Reino Unido, há muito tempo. Quando vemos as tabelas dos mais vendidos percebemos que a não ficção e a biografia são géneros muito respeitados. Em Portugal chegou tarde, mas chegou. No caso do romance histórico tivemos um alargamento. Há muito que temos grandes cultores do género, como o Alexandre Herculano.

MR – Não entende então que seja reflexo de um processo de auto-conhecimento?

JF – Não tenho certezas quanto a isso, mas não me custa nada a crer que as pessoas, perante uma situação, como bem descreve, de incerteza, procurem na históriua algumas respostas. Nós hoje somos aquilo que os nossos antepassados fizeram. Agora não podemos ir ao passado procurar receitas, temos de ser nós a produzir essas receitas.

MR – Olhando esta profusão de histórias que cruzam todas as épocas, fica a ideia de que somos um país bastante rocambolesco.

JF – Temos muitos traços rocambolescos. Eu procurei explicar na introdução o que se entende por rocambolesco e fiz a analogia com o personagem Rocambole, criado pelo escritor francês Pierre Ponson du Terrail, que contava histórias incríveis e fantásticas e que deu origem à palavra rocambolesco em quase todas as línguas.
Nós, em Portugal, temos um passado feitos de histórias dessas a começar pela “Peregrinação”, do Fernão Mendes Pinto. Aliás as pessoas não acreditam naquele relato e ele dizia que não tinha contado nem metade do que tinha visto. A nossa história tem de tudo, desde momentos de grande altruísmo e solidariedade de grandes e pequenos, até momentos de grande crueldade. De facto nos últimos anos tivemos alguns episódios bastante rocambolescos, desde logo a começar pela história do governo dos cinco minutos, durante a I República. Ou então, já mais perto de nós, a história do governo de Pinheiro de Azevedo que fez greve, em 1975. 

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Portugal não se trata no divã

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A psicóloga clínica Joana Amaral Dias deitou no divã um conjunto de personalidades que classificou de “Maníacos de Qualidade”. O resultado da investigação deu origem a um livro extraordinário sobre as psicopatologias de figuras como Antero de Quental, Fernando Pessoa ou João César Monteiro. Para esta ex-deputada o país não se trata no divã e a nossa grande fragilidade é uma paciência desmesurada.

Marechal na Reserva (MR) - Neste livro, a Joana assume o risco de analisar e diagnosticar várias personalidades portuguesas. Temeu a receção deste exercício?
Joana Amaral Dias (JAD) - Durante muito tempo aceitou-se a fórmula de Octávio Paz: “Os poetas não têm biografia. A sua biografia é a sua obra”. E esse pudor inibiu muitas investigações biográficas. Todavia, conhecer a vida do autor não nos arreda da sua obra. Antes pelo contrário. Embora, a minha análise psicológica e psicopatológica de João César Monteiro (ou de Fernando Pessoa e Antero de Quental) não se baseie na obra mas, sobretudo, nos documentos biográficos (cartas, diários, testemunhos), não partilho desse pavor intelectual infundido por Octávio Paz até porque vida é obra e obra é vida. Uma explica a outra. Obra transfigura a vida e vice-versa.

MR - Como é que selecionou este magnífico grupo de maníacos? Eram personalidades cuja psique já a interessavam?
JAD - Comecei por selecionar personagens cuja biografia estivesse documentada de molde a ter acesso a indícios consistentes de doença psiquiátrica. Desde logo exclui os casos em que a pesquisa não possibilitou um diagnóstico rigoroso. Em segundo lugar, procurei que o livro representasse diversas épocas históricas (o primeiro capítulo reporta-se ao séc. XXVII e o último ao séc. XXI) e diferentes quadros psicopatológicos. Cada parte do livro compreende uma vida mental e um diagnostico clínico diferente do seguinte. Todos juntos proporcionam ao leitor uma perspetiva de conjunto sobre a doença psiquiátrica.

MR - Já li que não sente uma especial proximidade por este ou aquele caso, contudo qual deles se manifestou como maior desafio profissional e intelectual. Em qual deles sentiu que estava a pisar território mais inexplorado?
JAD - Antero. Pela brutalidade, ignorância, crueldade e impotência da Medicina e Psiquiatria da época.
A análise psicológica e psicopatológica requer que nos coloquemos na cabeça do outro, debaixo da sua pele. Aliás, esse foi o maior desafio deste livro. Pensar como se fosse o outro, sentir como se fosse aquele, falar como se fosse ele. Escrever na primeira pessoa decorre desse exercício indispensável a este trabalho. Já escolher Antero para o verbalizar foi consequente a duas ordens de fatores. Primeiro, práticos. A quantidade e diversidade de registos auto-biográficos, nomeadamente epistolares, permitia-o com folga. Segundo, a própria vida mental deste açoriano, marcada pela duplicidade, fosse pelo irmão Antero morto antes do próprio nascer, fosse pela sua bipolaridade, tornava o centrar no “Eu” numa boa porta de entrada para o seu universo mental.

MR - Uma das questões que aborda, no caso César Monteiro, é a fina linha que divide a genialidade de uma qualquer patologia psíquica. São campos destrinçáveis?
JAD - Note-se que algumas das mais importantes obras desses poetas foram escritas antes da eclosão da esquizofrenia e antes do internamento e não depois.
Seja como for, se elaborar a análise psicológica e psicopatológica sem a presença do sujeito é, como digo no livro, caminhar sobre águas senão impossíveis, pelo menos traiçoeiras, supor como seria a obra de um autor caso não tivesse vivido encarcerado num desses “armazéns da desventura” é obra . O que se pode afirmar é que a doença psiquiátrica significa sempre um afunilamento das opções de pensar e sentir. A psicopatologia significa empobrecimento e limitação mental e não genialidade ou criatividade como muitas vezes, de modo preconceituoso e perigoso, se supõe. Isto é, de um modo geral, pode dizer-se que o adequado tratamento da doença psiquiátrica leva a uma vida (e, consequentemente, obra) mais completa e diversa, menos pobre e estreita.
De qualquer maneira, entre vida e arte prefiro a vida.

MR - Os casos de Antero de Quental, Ângelo de Lima e António Gancho tocam muito pela sensação de que poderiam ter vidas e obras mais longas se tivessem um melhor acompanhamento. Até que ponto sentiu alguma frustração e impotência ao pesquisar e escrever estas biografias?
JAD - É evidente que casos como Antero de Quental, cuja bipolaridade atualmente podia ser compensada prevenindo o seu suicídio macabro são pungentes. Escolher, no capítulo da Marquesa Jacóme Correia, construir um diálogo virtual com essa personagem e o testemunho auto-biográfico que legou, como se fosse uma psicoterapia (ainda que virtual e a viável neste contexto), correspondeu também à vontade de revelar ao leitor como poderia hoje ser uma resposta terapêutica. Esperemos que tenha resultado!

MR - Não esquece os tormentos passados por alguns personagens vítimas, por exemplo, de choques elétricos. A esse propósito gostava de saber como encara a polémica sobre a retirada ou não da Nobel a Egas Moniz. Como vê essa questão?
JAD - Atualmente, a lobotomia foi, felizmente proibida na maior parte dos países. Mas no inicio do século ela chegou a ser aplicada a milhares de pacientes, e ate alguns famosos como a irmã dos presidente do Jonh Kennedy (que ficou permanentemente incapacitada). Daí a retirar o premio Nobel a Egas Moniz vai uma grande distância. A historia do premio Nobel esta cheia de galardões que hoje se consideram mal atribuídos, porque conferidos às “pessoas” “erradas” ou porque não conferidos às pessoas “ certas”.Porem, mais do que esses solavancos serem intrínsecos ao Nobel, eles correspondem à própria história da ciência. O conhecimento não é algo acabado nem fechado e esta em constante revolução. Ainda bem que assim é. Certezas inabaláveis são próprias da religião e não da ciência. Egas Moniz ignorava os conhecimentos que hoje dispomos na psiquiatria, na psicologia e na neurocirurgia, e era movido numa genuína intenção de ajudar e curar pessoas com doença psiquiátrica muito grave. Claro que nada disto apaga o sofrimento cruel a que muitos lobotomizados foram sujeitos, mas duvido que a retirada do prémio Nobel resolva essa questão.

MR - Os portugueses são conhecidos por serem grandes consumidores de anti-depressivos e ansiolíticos, contudo parecem ter medo de recorrer à análise. Porque será que isso acontece?
JAD - A doença psiquiátrica sempre foi encarada de forma preconceituosa, milenarmente vista ora como possessão demoníaca, ora como toque divino. Hoje em dia, estes preconceitos vestem outras mascaras, surgem com diferentes papéis de embrulho, mas mantêm-se na sua essência. Isto é, em países menos desenvolvidos civilizacionalmente a doença psiquiátrica ´é ainda vista com vergonha e condenação social. Daí que, frequentemente as pessoas evitem recorrer à ajuda profissional, entendendo que esses serviços são apenas para loucos. È um erro. A consequência desta atitude é a que as maiorias das pessoas que acabam por pedir ajuda fazem-no já no fim da linha, volvido muito tempo após o inicio dos problemas. Ou seja, esse preconceito naturalmente dificulta o êxito terapêutico. Por outro lado, e como pergunta, recorrem à medicação, amiúde à auto-medicação, evitando um acompanhamento profissional e procurando uma prontidão na resposta que, a médio prazo se paga cara.

MR - Portugal vive em constante crise existencial. Já imaginou o país no divã do seu consultório? De que mal padece ele? E ainda será tratável?
JAD - Bom, todo o país no divã do meu consultório parece-me uma logística difícil de gerir. Falando mais a sério, julgo que os maiores problemas de Portugal são da responsabilidade dos seus governantes e não do seu povo. Basta ver, por exemplo,  como os portugueses são trabalhadores altamente produtivos quando emigram para outros países. Logo, não é a população portuguesa que provoca a crise, mas sim quem tem ocupado os mais elevados cargos da nação. E esse problema não se trata no divã (Que aliás não é magico, nem panaceia para todos os males), mas sim na política e nas urnas.

MR - Há quem admita que, enquanto nação, temos demasiada auto-consciência. Pode isso configurar algum tipo de patologia?
JAD - Acho que os portugueses não têm demasiada auto-consciência. Têm é demasiada paciência. Demoraram quase meio século a verem-se livres do salazarismo. De seguida, foram benevolentes com os seus algozes. Hoje, toleram tanto que em sondagens recentes revelavam , por exemplo, que a maioria dos portugueses acredita que Sócrates mente, mas mesmo assim votavam nele.

 

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